Centro Nacional de Pesquisa de Hortaliças (CNPH), Embrapa Hortaliças, CP 218, 70359-970 Brasília-DF
INTRODUÇÃO
No início da década de 1990, uma nova espécie vetora de geminivírus (Bemisia argentifolii ou B. tabaci biótipo B) foi introduzida no Brasil. O hábito alimentar polífago da B. argentifolii favoreceu sua rápida disseminação em todas as áreas produtoras de tomate. Nos anos de 2004 e 2005, foram observadas novas e severas epidemias de geminiviroses (Begomovirus), resultando em grandes perdas nas Regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste. Relatos recentes apontam a presença das geminiviroses também em regiões produtoras do Sul do Brasil. Neste cenário, a utilização de cultivares resistentes constitui-se em um dos componentes mais simples e eficazes, visando o manejo integrado deste grupo de viroses do tomateiro, mas não o único. De fato, muitas cultivares de altíssima qualidade genética e elevado potencial produtivo não apresentam resistência a estas viroses. Neste artigo, listamos algumas das estratégias de manejo cultural e de controle químico do inseto vetor que podem ser utilizados com cultivares suscetíveis de tomateiro, reduzindo ao máximo as perdas potenciais das geminiviroses.
Decálogo do Controle cultural
(01) Isolamento físico - a produção de mudas deve ser efetuada em viveiros com pedilúvio (caixa com cal virgem), antecâmaras e telados com malha máxima de 0,239 mm.
(02) Os viveiros devem ser instalados longe dos plantios comerciais de tomate, independente da presença ou da ausência de geminivírus ou da mosca-branca.
(03) Só utilizar mudas sadias e vigorosas, retardando ao máximo o transplante a campo. Quanto mais cedo ocorrer a infecção das plantas pelo vírus, mais danos serão observados, com a conseqüente redução da produção. Nos viveiros, utilizar inseticidas registrados para a cultura. Aplicar inseticida nas mudas, antes do transplante. Evitar transplantar antes dos 21 dias. Estudos realizados na Embrapa Hortaliças indicam que infecção precoce do vírus em mudas de tomateiro reduzem em 60% a produtividade de cultivares suscetíveis ao vírus. Deste modo, as mudas devem ser, sempre que possível, protegidas ainda na sementeira e nos primeiros 30 dias após o transplante.
(04) As sobras das mudas que foram a campo não devem, de forma alguma, retornar aos viveiros.
(05) Evitar, em uma mesma área, o escalonamento de plantio. Quando não for possível o plantio em uma só etapa, recomenda-se fazer o segundo plantio com menos de 60 dias.
(06) É importante a manutenção da lavoura no limpo, eliminando as plantas daninhas potenciais hospedeiras de viroses antes do plantio e nos primeiros dias do estabelecimento da lavoura. Viroses similares as encontradas no tomateiro têm sido detectadas em vassourinha (Sida spp), trevinho, Nicandra (joá-de-capote), Datura, Joá-bravo, Physalis e Maria-pretinha.
(07) Outra medida preventiva é o uso de barreiras vivas, que visam impedir ou retardar a entrada de adultos de mosca-branca na lavoura. As barreiras devem ser perpendiculares à direção predominante do vento e, quando possível, rodear a lavoura. Podem ser utilizadas plantas como sorgo forrageiro, milho e cana-de-açúcar. Por ocasião do transplante, as plantas usadas como barreiras devem estar com 1,0 m de altura.
(08) Armadilhas amarelas atraem adultos de mosca-branca e são úteis para o monitoramento do inseto. Podem ser usadas cartolinas, lonas, plásticos ou etiquetas, de coloração amarela, untadas com óleo. Devem ser localizadas na mesma altura das plantas de tomate.
(09) Eliminação de restos culturais - A Instrução Normativa do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento n.º 24, de 15/04/03, torna obrigatória a eliminação de restos culturais (restos de colheita e frutos podres) até 10 dias após a colheita de cada talhão. Entende-se por talhão a área de tomate plantada contígua e colhida ao mesmo tempo. As lavouras abandonadas ou com ciclo interrompido deverão ser destruídas imediatamente pois são as principais fontes de inóculo para as novas lavouras.
(10) Inicialmente, deve ser estabelecido um calendário de plantio anual, definindo um período mínimo entre 60 a 120 dias consecutivos livres de cultivo de tomate, conforme as peculiaridades de cada microrregião (Instrução Normativa do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento n.º 24, de 15/04/03).
Decálogo do Controle químico
(01) Utilizar apenas produtos registrados para a cultura.
(02) Utilizar, primeiramente, um inseticida do grupo químico dos neonicotinóides, que agem sobre os adultos do inseto, inibindo a alimentação, vôo e movimento, reduzindo a oviposição (Tabela 1).
(03) Realizar uma aplicação semanal.
(04) Utilizar um mesmo produto (princípio ativo) por três primeiras semanas seguidas. Na 4ª, 5ª e 6ª semanas, usar outro produto, de outro grupo químico (Tabela 1), procedendo desta maneira até a colheita. Como a espécie B. argentifolii desenvolve rapidamente resistência aos diversos princípios ativos, deve-se adotar a rotação entre grupos químicos para aumentar a vida útil dos produtos.
(05) Não utilizar mistura de inseticidas.
(06) Respeitar o período de carência que está no rótulo do produto. O período de carência é o intervalo entre a última pulverização e a colheita.
(07) Utilizar óleos e detergentes neutros em baixa concentração (0,5%). Esses produtos interferem no metabolismo e na respiração do inseto, além de provocar mudanças na estrutura da folha e ter efeito repelente. Os efeitos diretos sobre a mosca-branca são a redução na oviposição e transtornos no desenvolvimento larval, especialmente no primeiro estádio, em que as ninfas não se alimentam na superfície tratada com óleo e morrem desidratadas.
(08) Direcionar o jato de aplicação de baixo para cima. Como a maioria dos produtos químicos (inclusive detergentes e óleos) atua por contato com o vetor, é importante que a calda cubra de maneira homogênea a parte inferior da folhagem, para atingir as colônias.
(09) Realizar as pulverizações entre 6:00 e 10:00 horas ou a partir das 16:00 h, para evitar a rápida evaporação da água e a degradação dos produtos.
(10) Usar a dosagem indicada pelo fabricante (no rótulo do produto) e a quantidade de água adequada, em geral 400-600 L/ha, com pH 5,0. Não utilizar sub-dosagens. Manter em bom estado os equipamentos, com boa pressão de aspersão, usando bicos adequados para distribuição uniforme de gotas finas (menos de 0,05 mm de diâmetro) e bombas de alta pressão, quando necessárias. Quando possível, empregar um atomizador, para diminuir o tamanho das gotas e provocar uma melhor distribuição das mesmas.
Conclusões
Nossa experiência tem demonstrado que a adoção combinada destas estratégias permite uma convivência com as geminiviroses sem que a cultivar apresente resistência genética. No entanto, um enorme esforço de pesquisa têm sido feito para que fatores de resistência genética estejam disponíveis em todos os segmentos varietais de tomate. Enquanto isto não ocorre, a adoção de estratégias de manejo integrado da doença e do inseto vetor podem abrandar, em muito, os danos causados pelas geminiviroses, permitindo aproveitar o grande potencial genético e excelente qualidade de frutos das principais cultivares existentes no mercado.